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Polícia

“Nós acreditamos que existam outras vítimas”: mãe de menina violentada por empresário fala pela primeira vez sobre o caso

“O objetivo de eu estar aqui contando o nosso pesadelo é porque a gente acredita que existam outras crianças vítimas”. Foi assim que a mãe de uma das vítimas de Edgar da Silva Soares, empresário do Vale do Sinos condenado pelo estupro de três crianças resumiu a decisão de falar sobre o caso, com exclusividade à reportagem de DuduNews, depois da sentença que determinou 27 anos e 3 meses de prisão em regime fechado ao agressor.

“O objetivo de eu estar aqui contando o nosso pesadelo é porque a gente acredita que existam outras crianças vítimas”

Sem se identificar para preservar a filha e o processo, que tramita em segredo de justiça, ela concedeu a entrevista e contou como a denúncia transformou a vida da família.

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Segundo a mãe, a filha fazia parte de um grupo de amigas que mantinha amizade desde muito pequena, no início da vida escolar. A relação entre as meninas acabou aproximando também os pais, que criaram uma relação de confiança. Nesse período, a enteada do empresário — que, anos depois, também foi vítima do agressor — passou a integrar o grupo e todas passaram a frequentar a casa da família. 

Em seu relato, a mãe afirmou ainda que o homem “estava acima de qualquer suspeita” (Foto: Reprodução/Redes sociais)

Família descobriu em um Dia das Mães

A mãe da menina conta que, antes de descobrir o que havia acontecido, já percebia mudanças no comportamento da filha. A menina passou a evitar as aulas presenciais após a pandemia e se afastou das amigas, atitudes que, na época, pareciam não ter explicação.

Apesar das violências terem acontecido anos antes, as famílias das vítimas só ficaram sabendo dos crimes em 2024, quando a denúncia da enteada do empresário veio à tona para as amigas. O relato fez com que sua filha e outra menina também encontrassem coragem para revelar a violência sofrida. 

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“Eu fiquei sabendo em um Dia das Mães, e só então entendi as mudanças no comportamento da minha filha”

“A minha filha contou o que aconteceu no dia em que foi dormir lá. Na hora, eu entendi todas aquelas mudanças de comportamento, o afastamento das amigas e a dificuldade que ela tinha para voltar para a escola”, relembra.

Depois da denúncia, as três vítimas foram submetidas a exames e encaminhadas para atendimento especializado. Aos pais e às vítimas, começava ali uma longa jornada com diversos atendimentos, perícias e depoimentos.

“Já tem mais de um ano de acompanhamento psicológico. E a gente passou por todas as etapas da investigação, fomos para o CREAS e para os atendimentos especializados. Até detector de mentiras as meninas e familiares passaram”, conta.

Ela menciona o Centro de Referência Especializado de Assistência Social, que são unidades públicas que oferecem apoio e acompanhamento especializado a indivíduos e famílias em situação de risco pessoal e social por violação de direitos, como no caso de violência sexual.

A mãe acredita que o silêncio entre as meninas era consequência do medo e do trauma vividos por todas. “Se a amiga viu, não falou nada porque provavelmente passava por isso também. Naquele dia, talvez ela só tenha pensado: ‘não é comigo hoje'”, refletiu durante a conversa.

Reflexos da violência

“E eu descobri um monte de coisa durante o processo, com a rede de proteção. O número de crianças atendidas, a gente nem imagina. E, além da violência que as vítimas sofrem, existe toda a burocracia do processo. É uma caminhada muito difícil para as crianças e para as famílias”, desabafou.

Ela afirma que os reflexos da violência ultrapassaram a investigação e atingiram diretamente a vida escolar e social da filha. “Ela era ótima aluna. Depois disso, não conseguia permanecer dentro da sala de aula nem participar das atividades”, lamenta a mulher.

A mãe relata que a filha ainda passou a apresentar sinais de sofrimento psicológico. “Minha filha começou a se machucar. Era o jeito dela se ‘anestesiar’ para conseguir ficar dentro da sala de aula”.

Hoje em dia, mesmo já passados mais de 4 anos da violência, a menina ainda demonstra problemas de socialização e continua recebendo acompanhamento psicológico.

Apesar da dor, a mãe é direta ao dizer que nem sequer cogitou deixar o caso em silêncio, a partir do momento em que as meninas quiseram falar. Antes de procurar a polícia, conversou com a filha sobre o significado da denúncia. “Eu disse para ela ‘agora que vocês contaram esse segredo, que era de vocês, a gente tem duas opções: parar por aqui e deixar que ele faça isso com outras crianças, ou enfrentar essa caminhada para que ele seja responsabilizado’.”

Em seu relato, ela não descarta mais vítimas no ciclo de violência do empresário do Vale do Sinos condenado.

“Eu me pergunto o que posso fazer por todas essas mães. Talvez contar a nossa história seja a forma de ajudar outras famílias a terem coragem de denunciar.” 

Como denunciar

Qualquer pessoa pode efetuar uma denúncia de violência contra uma criança ou um adolescente. Familiares, vizinhos, professores, profissionais da saúde ou outra pessoa que tenha conhecimento ou suspeita de violações de direitos podem procurar os serviços de proteção.

Não é necessário ter provas para denunciar. A suspeita já é suficiente para acionar os órgãos competentes. A apuração dos fatos caberá às autoridades responsáveis, conforme os fluxos legais de proteção e investigação.

Antes de procurar um canal de denúncia, é importante reunir, sempre que possível, informações como: quem é a vítima, o que aconteceu, onde os fatos ocorrem, quem seria o possível autor da violência e se a situação ainda está acontecendo.

Canais

O Disque 100 recebe denúncias de violência física, psicológica, sexual, negligência, abandono e exploração infantil. O serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.

A denúncia pode ser feita gratuitamente pelo telefone 100, pelo site do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil, pelo WhatsApp (61) 99656-5008 e pelo Telegram pesquisando por “Direitos Humanos Brasil”.

A denúncia pode ser anônima. Durante o atendimento, são solicitadas informações básicas sobre a vítima, o local dos fatos e a situação de risco. Após o registro, o caso é encaminhado aos órgãos responsáveis pela proteção da criança ou adolescente.

O telefone 190, da Polícia Militar, deve ser acionado quando a criança ou adolescente estiver em risco imediato ou quando houver necessidade de intervenção policial urgente.

Isso inclui situações de agressão em andamento, ameaça, abuso sexual, abandono ou desaparecimento. Ao ligar, é importante informar o endereço e explicar o que está acontecendo.

As delegacias podem ser procuradas em casos de violência física, abuso sexual, exploração infantil ou desaparecimento de crianças e adolescentes.

É possível registrar boletim de ocorrência e apresentar mensagens, fotos, vídeos e outras informações que auxiliem na investigação. Mas a ausência desses materiais não impede o registro da ocorrência. A investigação deve ser conduzida pelas autoridades competentes. Dependendo do estado, o registro também pode ser feito pela internet.

CRAS: rede de proteção

Os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) também integram a rede de proteção.

O CREAS atende casos de violência e violação de direitos, oferecendo acompanhamento psicossocial. Já o CRAS atua no fortalecimento dos vínculos familiares e na orientação de famílias em situação de vulnerabilidade.

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