Um perfil criado nas redes sociais pela ex-moradora de Novo Hamburgo Juliana Roig se transformou, nos últimos dias, em um espaço para reunir relatos de mulheres que afirmam ter sido vítimas de violência doméstica e sexual supostamente praticadas pelo irmão dela, conhecido como “Vico”.
As denúncias começaram após o relato de Michele Selliach Duarte, ex-namorada de Vico e moradora de Torres, cidade onde o homem reside atualmente. A irmã afirma que decidiu criar a página após conversar com Michele, que já a conhecia anteriormente. “Eu pensei: vou ajudar essas mulheres. Não é possível continuar nesse ciclo de 30 anos de violência“, relata Juliana.

Desde então, dezenas de mulheres passaram a procurar Juliana para compartilhar relatos semelhantes. O perfil reunia mais de 13 mil seguidores nesta sexta (24) e já foi compartilhado por grandes influenciadoras como Pati Pontalti, Deia Freitas, e atrizes como Luana Piovani, que cobrou investigação sobre as denúncias.
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“Dói falar, mas quero justiça” relata vítima
No primeiro depoimento público, Michele publicou uma série de vídeos narrando o relacionamento com Vico. Ela conta que, no início da relação, em 2025, ele demonstrava excesso de atenção e promessas de um futuro idealizado – comportamento conhecido como love bombing, estratégia de manipulação emocional caracterizada pela demonstração intensa de afeto para criar dependência da vítima.
Segundo Michele, após conquistar sua confiança, o comportamento teria mudado. “Ele me deu o primeiro empurrão ali por fevereiro”, relata. Depois disso, episódios de ciúmes excessivos, controle, agressões físicas e violência sexual eram comuns no relacionamento dos dois.
No relato de Michele e de outras mulheres nas redes sociais, Vico apresentaria um comportamento manipulador para que as vítimas não desistissem da relação, com promessas de que mudaria e pedidos de desculpas. Foi o que aconteceu com Michele nos outros dois meses seguintes após a primeira agressão. Em março, ela conseguiu se desvincular totalmente do ex-companheiro. “Dói? Dói. Mas agora eu quero que a justiça seja feita”, afirma.

Após o término do relacionamento, Michele registrou ocorrência por estupro na Polícia Civil de Torres. Ela recebeu atendimento especializado na Sala das Margaridas, obteve Medida Protetiva de Urgência e atualmente é acompanhada pela Patrulha Maria da Penha.
Delegado incentiva denúncias
Em entrevista concedida à imprensa de Torres nesta semana, o delegado Marcos Vinícius Muniz Veloso, responsável pela investigação, confirmou que há um inquérito policial em andamento para apurar os fatos.
De acordo com o delegado, a Polícia Civil está reunindo provas e incentiva que outras possíveis vítimas procurem a delegacia para registrar ocorrência. “Quando nos deparamos com mulheres tendo coragem de relatar essas situações, a Polícia Civil fica atenta.”
Ele destacou ainda que as delegacias contam com estrutura especializada para acolher vítimas de violência doméstica. A reportagem entrou em contato com o delegado e aguarda retorno para obter informações atualizadas sobre o andamento do inquérito.
Uma mulher é agredida a cada dois minutos no país
Os relatos surgem em um contexto de crescimento dos registros de violência contra mulheres no País. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado nesta semana, apesar da violência letal ser o ponto mais extremo da pirâmide, a base é formada por crimes que, embora não matem, estruturam o cotidiano de medo, controle e restrição vivido por muitas mulheres.
Segundo dados, mais de 788 mil mulheres registraram ocorrências de ameaça em 2025, enquanto os casos de lesão corporal em contexto de violência doméstica cresceram 2,6% em relação ao ano anterior, o equivalente a uma mulher agredida a cada dois minutos no Brasil.
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Boletim de Ocorrência registrado em Novo Hamburgo
Segundo Juliana, ela recebeu relatos referentes a crimes que teriam sido cometidos no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A família de Roig já viveu em Novo Hamburgo, onde uma das denúncias envolvendo o irmão foi registrada formalmente.
Uma ex-namorada formalizou em um boletim de ocorrência neste mês relatando ameaças e episódios de violência ocorridos em 1996, quando a família morava no centro de Novo Hamburgo. O caso, no entanto teria acontecido há trinta anos e por isso já prescreveu, e não podendo mais ser responsabilizado criminalmente. Mesmo assim, serve para estabelecer a ideia de continuidade no modo de agir do suspeito.
Juliana relata ainda que rompeu relações com parte da família por entender que as atitudes do irmão continuariam sendo apoiadas pela mãe e irmãos. Hoje, ela mora fora do Brasil.
A irmã conta que, desde que a página foi criada, na primeira quinzena de julho, já perdeu a conta da quantidade de mulheres que fizeram contato relatando situações semelhantes. Toda envolveriam agressões físicas, violência psicológica, ameaças, cárcere privado e abuso sexual.

“E isso prendeu as pessoas de um jeito, eu posto um story e recebo 7, 8 mensagens de pessoas indignadas, de vítimas. Eu estou chocada”, desabafa. Agora, ela continua a atualização na rede com o objetivo de dar voz às vítimas e pede que as mulheres tenham coragem de relatar os acontecimentos às autoridades. “Chega de impunidade, não queremos mais esse predador a solta.”
Foto da capa: Daniele Souza/CMNH




