A diretora meteorológica da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou que o fenômeno climático “El Niño” pode ser o mais forte dos últimos 40 anos. A informação foi publicada pela Agência Brasil nesta quarta-feira (21). Para aproximar a informação ao Vale do Sinos, a meteorologista formada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), com mestrado na área de tempestades pela Universidade de São Paulo (USP), Estael Sias, explica os principais comportamentos do fenômeno climático e responde as principais dúvidas da população gaúcha.
O que é o “Super El Niño”?
Estael também é sócia-diretora da MetSul Meteorologia e explica que o El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico. No Brasil, o fenômeno costuma provocar mais chuva na Região Sul e períodos de seca no Norte e no Nordeste. Portanto, os efeitos não se restringem ao Rio Grande do Sul (RS), pois atingem diferentes regiões do mundo inteiro.

Quando chega no Vale do Sinos?
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) declarou oficialmente o início do El Niño em junho de 2026. Desde então, o fenômeno já influencia o clima mundial e contribui para o aumento das chuvas no RS. Incluindo os últimos temporais que chegaram ao Vale do Sinos nos dias 21 de setembro e 06 de agosto.
Entre julho e agosto deste ano, o Estado já registrou volumes de chuva acima da média histórica. Segundo a meteorologista, o El Niño ainda está em fase de intensificação. Os dados mais recentes citados por ela indicam que a temperatura das águas do Pacífico já está pelo menos 3 °C acima do normal e podem chegar a 4 ºC, o que nunca aconteceu na história.



A previsão é que o aquecimento atinja seu pico entre novembro e dezembro de 2026. No entanto, os principais reflexos dessa elevação sobre as chuvas e as bacias hidrográficas do RS e Vale do Sinos podem aparecer apenas no outono de 2027, especialmente entre abril e maio. Isso acontece porque existe um intervalo entre o aquecimento do oceano e seus efeitos sobre a atmosfera e as regiões afetadas.
O verão também deve registrar chuvas acima da média e maior frequência de tempestades. A meteorologista ressalta que os efeitos do El Niño já estão acontecendo, mas ainda podem se intensificar nos próximos meses.
Onde o El Niño terá mais impacto e como será no Vale do Sinos?
O Paraná deve estar entre os estados brasileiros mais impactados pelo El Niño, segundo a avaliação da meteorologista. A região já registra chuvas intensas e temporais, e as projeções indicam anomalias de precipitação de 300 a 400 milímetros por mês até abril de 2027.
Na América do Sul, o extremo Norte da Argentina e o Paraguai também devem enfrentar impactos importantes do fenômeno.
O Rio Grande do Sul também deve registrar chuvas volumosas e, em alguns períodos, volumes acima do esperado. No entanto, a previsão apresentada pela meteorologista indica impactos menores no Estado em comparação com o Paraná. No Vale do Sinos, a tendência é de efeitos menos intensos ainda.


Isso não significa que a região terá um período de normalidade. Em anos de El Niño, o aumento das chuvas eleva o risco de temporais, alagamentos e enchentes. O inverno e a primavera costumam concentrar os primeiros impactos mais significativos do fenômeno.
Apesar do alerta, a meteorologista afirma que, neste momento, não há indicadores que apontem para uma situação de vulnerabilidade semelhante à registrada em 2024 no Rio Grande do Sul.
Teremos enchentes no Vale do Sinos?
O El Niño aumenta o risco de enchentes no Rio Grande do Sul, mas sua intensidade, isoladamente, não determina a dimensão de um possível desastre. A meteorologista explica que existe uma relação entre o fenômeno e as grandes cheias registradas no Estado, como as de 1982 e 1983, 1997 e 1998 e 2015 e 2016.
No entanto, ela ressalta que a tragédia de 2024 resultou de uma combinação de fatores climáticos e das condições dos rios e do solo. O Estado já vinha enfrentando períodos de chuva intensa em 2023, o que deixou o solo saturado e contribuiu para agravar a situação. Entre abril e maio de 2024, alguns pontos registraram acumulados de 800 a mil milímetros de chuva.
Além da influência do El Niño, o desastre foi agravado por outros fatores, como o bloqueio atmosférico no Centro do Brasil, as águas muito quentes do Oceano Atlântico e sistemas meteorológicos regionais que favoreceram a concentração de chuva sobre o Rio Grande do Sul.



Por isso, a meteorologista destaca que a intensidade do El Niño não é uma sentença de desastre. Embora o fenômeno aumente o potencial para enchentes e alagamentos, a ocorrência de eventos extremos depende também de outros fatores que podem se formar mais perto das datas previstas.
A avaliação é de que o Vale do Sinos poderá enfrentar episódios de enchentes de diferentes intensidades até maio ou junho de 2027. A possibilidade de novos eventos exige atenção, especialmente porque o pico de aquecimento do Pacífico deve ocorrer no fim de 2026, com reflexos sobre as chuvas nos meses seguintes.
Porém, ainda é cedo para afirmar se o Estado enfrentará em abril e maio de 2027 a mesma combinação de condições que provocou a tragédia de 2024. Segundo a meteorologista, previsões com maior detalhamento sobre esses fatores regionais dependem de análises feitas mais perto do período.
CONCLUSÃO
Portanto, a meteorologista explica que existe uma correlação direta entre El Niño e enchentes no Rio Grande do Sul, mas a intensidade do fenômeno climático, que já é recorde e vai se intensificar mais, não tem uma relação direta com o tamanho do desastre: “Intensidade não é sentença”. Portanto, ainda é cedo para afirmar que teremos com certeza uma enchente. O que já é possível prever e que já ocorre é que os volumes de chuvas serão maiores nestes meses, em comparação com o mesmo período de anos anteriores.
FOTOS: Reprodução MetSul Meteorologia | Enchentes: Digue Cardoso / @diguecardoso




