A Polícia Civil deflagrou, na manhã desta quarta-feira (13), a Operação Criptoabate, que investiga uma organização criminosa por estelionato, fraude eletrônica e lavagem de dinheiro, por meio de falsas plataformas de investimentos. Entre as 140 potenciais vítimas identificadas em todo o Brasil, uma idosa de 70 anos, moradora de Porto Alegre, perdeu R$ 37 milhões para os golpistas.
A ação foi realizada por meio da Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos, vinculada ao Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DPRCPE/DERCC), com 90 ordens judiciais cumpridas em três estados diferentes. No RS, os mandados de busca e apreensão foram realizados em Gravataí.
Estão sendo cumpridos dez mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão, também nos estados de Santa Catarina e São Paulo. Além das prisões, a Justiça decretou medidas cautelares diversas da prisão contra outros oito investigados.
O golpe do “abate de porcos”
A investigação teve início após a idosa de Porto Alegre procurar a Polícia Civil e relatar prejuízo superior a R$ 37 milhões em uma fraude envolvendo uma suposta plataforma de investimentos. Segundo o delegado responsável pelo caso, Eibert Moreira, o dinheiro era uma herança, e a mulher possuía um corretor de investimentos próprio, mas acabou migrando o seu patrimônio para a falsa plataforma elaborada pelos golpistas.
A dinâmica identificada possui características da modalidade conhecida internacionalmente como “pig butchering”, expressão que pode ser traduzida como “golpe do abate de porcos”.
Nesse tipo de fraude, os criminosos não buscam obter apenas um pagamento isolado. A vítima é submetida a um processo gradual de convencimento, no qual confiança, credibilidade e uma falsa expectativa de lucro são construídas ao longo do tempo até que os aportes atinjam valores cada vez maiores.
No caso investigado, a vítima foi inserida em grupos de mensagens que simulavam comunidades legítimas de estudo e investimentos no mercado financeiro. Os ambientes possuíam supostos especialistas, assistentes e outros participantes, que interagiam de forma organizada.
Os criminosos apresentavam análises de mercado, orientações financeiras e resultados aparentemente positivos, fazendo com que a vítima acreditasse que seus investimentos estavam gerando lucro. A partir dessa confiança, eram estimulados aportes progressivamente maiores.
Quando a vítima tentava retirar o dinheiro, entretanto, os saques eram bloqueados. A partir daí, passavam a surgir novas exigências financeiras, como supostas taxas, impostos ou valores necessários para liberação do patrimônio.
A investigação identificou ao menos 140 potenciais vítimas inseridas em ambientes digitais relacionados à mesma dinâmica, além de outros registros de fraudes semelhantes vinculados às estruturas financeiras investigadas em diferentes estados brasileiros.
Uso de laranjas e gerentes de instituições financeiras
Segundo a PC, a organização criminosa possuia uma estrutura organizada e com divisão de tarefas, envolvendo indivíduos responsáveis pela captação das vítimas, criação e disponibilização de contas bancárias, movimentação dos valores, intermediação financeira, facilitação de procedimentos bancários e posterior conversão de parte dos recursos em ativos virtuais.
A apuração identificou empresários, administradores de pessoas jurídicas, operadores financeiros, pessoas responsáveis pela obtenção e disponibilização de contas bancárias e uma profissional vinculada a gerência de uma instituição financeira.
O objetivo da organização, conforme apurado, era garantir que o dinheiro recebido das vítimas pudesse circular rapidamente por diferentes estruturas, dificultando o bloqueio dos recursos e a identificação de seus beneficiários finais.
R$ 295 milhões movimentados em um único dia
Ao longo das diligências, foram identificadas empresas com movimentações absolutamente incompatíveis com o patrimônio, faturamento ou atividade econômica declarados.
Uma das estruturas analisadas, vinculada à intermediação de ativos virtuais, chegou a registrar aproximadamente R$ 295 milhões em movimentações em um único dia.
Polícia alerta para golpes
A Polícia Civil alerta a população para que desconfie de promessas de rentabilidade extraordinária, grupos de investimentos administrados por pessoas desconhecidas, plataformas financeiras sem credenciais verificáveis e, principalmente, solicitações de novos depósitos como condição para permitir o saque de valores já investidos.
A exigência de novas taxas, impostos ou garantias para liberar um investimento supostamente bloqueado é um dos principais sinais de alerta para esse tipo de fraude.




