Marcos Carrasquel, 39 anos, advogado venezuelano que mora há cerca de dez anos no bairro Santo Afonso, em Novo Hamburgo, estava na Venezuela quando os terremotos atingiram o país na noite de quarta-feira (24). Era a primeira visita dele à terra natal em muitos anos. Ele e a família correram para fora do prédio em que estavam reunidos e se abrigaram em área aberta, longe das construções, onde estão até agora.

“Não. Aqui não tem nada. Nem preparação. Aqui tem é dor e um povo sofrido. A gente não merece tanta dor”, disse Marcos à reportagem de DuduNews sobre a ausência de sistemas de alerta.
Os dois terremotos, de magnitude 7,2 e 7,5, causaram pelo menos 920 mortes e deixaram mais de 3 mil feridos – números atualizados na manhã deste sábado (27). A ONU estima 50 mil desaparecidos. As primeiras estimativas apontavam 164 mortos, mas o número cresceu nas horas seguintes à tragédia.


Exílio, retorno e choque
Marcos saiu da Venezuela há mais de uma década por perseguição política durante o início do governo de Nicolás Maduro, segundo ele. Advogado, deixou família e país para reconstruir a vida no Brasil. Em Novo Hamburgo, trabalhou, recebeu apoio social e construiu raízes. A visita atual era a primeira oportunidade de rever a mãe e os parentes depois de anos.
O que encontrou foi diferente do que esperava. “Chegar aqui e encontrar uma realidade que eu só assistia pelo jornal, pela TV. Um país com uma estrutura destruída. Tem muita gente que ainda está passando necessidade pela conduta inadequada dos direitos aqui. O Maduro foi preso, mas a situação segue sendo a mesma. A sobrevivência do dia a dia do venezuelano é uma coisa difícil”, relatou. Maduro foi capturado por forças dos Estados Unidos em 3 de janeiro de 2026, após anos de acusações.
Burocracia em meio ao desespero
Marcos também relatou dificuldades no acesso às vítimas soterradas. Segundo ele, o governo exigiu cadastro prévio de voluntários antes de autorizar a participação nos resgates. “Imagina, ontem eles mandaram as pessoas se registrar para servir como colaborador, mas não tinha sistema. Mandaram o povo ir hoje para se registrar para poder ir lá salvar a vida. Enquanto as horas passam, tem muita gente que ainda está viva, pedindo ajuda para ser resgatada. E eles não estão deixando.”
A exigência de cadastro foi confirmada: o governo venezuelano determinou que voluntários se registrassem no Poliedro de Caracas, com identificação de área de atuação e credencial com QR code antes de participar das operações. Especialistas em resgates afirmam que as primeiras 48 a 72 horas após a tragédia são cruciais. Depois desse período, a chance de encontrar sobreviventes cai consideravelmente.

Marcos relatou ainda que resgatistas colombianos teriam ficado retidos por horas na imigração venezuelana antes de conseguir entrar no país. A informação não foi confirmada de forma independente até a publicação desta reportagem. Um avião da Força Aérea Colombiana com 63 profissionais de resgate chegou à Venezuela na sexta-feira (26).
“É muita gente morta, é muita gente soterrada, gente viva. E a gente não sabe onde está Deus ou o porquê Deus permite tantas coisas para os nossos povos. Mas com a esperança de que passe tudo isso, porque esse povo não merece mais castigo”, completou Marcos.

O que causou os terremotos na Venezuela
Dois terremotos atingiram a Venezuela com intervalo de apenas 39 segundos na noite de quarta-feira (24). O primeiro, de magnitude 7,2, ocorreu às 19 horas (horário de Brasília). O segundo, de magnitude 7,5, veio logo na sequência. O epicentro de ambos foi próximo a El Guayabo, região próxima a Caracas.
A Venezuela está localizada no encontro entre a Placa do Caribe e a Placa da América do Sul, área de intensa atividade sísmica. O movimento contínuo, o atrito e o acúmulo de energia entre essas placas provocam, periodicamente, liberações abruptas de energia na crosta terrestre. Foi o que ocorreu na quarta-feira.
Por que o Brasil sentiu?
A intensidade dos tremores foi suficiente para que fossem sentidos a milhares de quilômetros de distância. Terremotos acima de magnitude 7 propagam ondas sísmicas por toda a crosta terrestre, e os abalos da Venezuela chegaram a ser registrados em estados brasileiros, incluindo na Amazônia.
Venezuela sem Maduro: quem governa o país hoje
A Venezuela vive uma transição política desde janeiro de 2026, quando Nicolás Maduro foi capturado por forças dos Estados Unidos e extraditado para responder a acusações de narcotráfico e narcoterrorismo. No comando do país está Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente do governo Maduro, que assumiu a presidência interina por determinação do Tribunal Supremo de Justiça.
Advogada e professora universitária de 56 anos, Delcy integra o chavismo desde a era Hugo Chávez. Em meses no poder, abriu canal diplomático com os Estados Unidos, liberou dezenas de presos políticos e prometeu eleições “livres e justas”. O calendário eleitoral, porém, segue indefinido. Uma pesquisa recente aponta que 64% dos venezuelanos querem que as eleições presidenciais ocorram ainda em 2026.
É nesse cenário de instabilidade política e transição de poder que o terremoto atingiu o país, sobrecarregando um Estado já fragilizado e uma infraestrutura descrita por moradores, como Marcos Carrasquel, como destruída antes mesmo da catástrofe natural.
*Colaborou: Gabriela Panassal



