Um jovem com lápis e papel em 1953. Um torcedor de chapéu e réplica de taça em 2014. Um publicitário com inteligência artificial em 2026.
Em momentos diferentes, todos do Rio Grande do Sul, todos encontraram a linguagem certa para traduzir o que o Brasil sente quando o assunto é o nosso futebol
O Rio Grande do Sul não é o estado com mais títulos, mais craques formados ou mais torcedores nos estádios – apesar de ser lar de gigantes. Mas, em três momentos decisivos da história do futebol brasileiro, foi um gaúcho quem capturou o espírito do país com mais precisão do que qualquer outro.
1953. O lápis que vestiu o Brasil de canarinho
Três anos antes, o Brasil havia perdido de branco.
A derrota para o Uruguai no Maracanã, em 1950, ficou conhecida como Maracanazo. Não foi só um resultado esportivo, mas uma ruptura. O país que tinha construído o maior estádio do mundo para sediar a Copa, que entrou em campo diante de 200 mil pessoas como favorito absoluto, saiu com uma ferida que levaria anos para cicatrizar. A camisa branca virou símbolo do trauma. Então, visualmente era preciso recomeçar.
Em 1953, a Confederação Brasileira de Desportos e o jornal Correio da Manhã abriram um concurso nacional para criar um novo uniforme. A única exigência: as cores da bandeira brasileira. Participaram 301 candidatos de todo o país.



O vencedor tinha 18 anos, era de Jaguarão, na fronteira com o Uruguai. O mesmo país que havia derrubado o Brasil três anos antes.
Aldyr Garcia Schlee fez uns 100 desenhos até chegar ao modelo ideal. A combinação de amarelo, verde e azul que ele concebeu não só ganhou o concurso, mas se tornou a identidade visual mais reconhecida do futebol mundial. O canarinho nasceu das mãos de um jovem do interior gaúcho que nunca tinha desenhado um uniforme profissional antes.
Schlee seguiu a vida como escritor bilíngue, tradutor e professor. Morreu em 2018. Mas a camisa que criou segue em campo e arrepia adversários pelo peso que carrega como a única até hoje com cinco estrelas.
2014. O choro que resumiu um país
Clóvis Acosta Fernandes, de Cruz Alta, era presença garantida nas Copas do Mundo desde 1990. Com o chapéu coberto de bandeiras e uma réplica da taça sempre no braço, tornou-se um dos rostos mais conhecidos das arquibancadas brasileiras no mundo inteiro. Era chamado de Gaúcho da Copa.
Esteve nas finais de 1994, 1998 e 2002. Viu de perto as glórias e as derrotas. Mas nada o preparou para o que aconteceu em Belo Horizonte, no dia 8 de julho de 2014, no Mineirão.
Na semifinal contra a Alemanha, o Brasil tomou sete gols. O fatídico 7 a 1, no maior vexame da história da seleção. Uma foto registrou Seu Clóvis nas arquibancadas com a réplica da taça apertada contra o peito, a expressão de aniquilação no rosto. A imagem deu a volta ao mundo. Não era só ele que chorava, mas o Brasil inteiro.
Clóvis não precisou dizer nada. A foto disse tudo. Ele faleceu em setembro de 2015, aos 60 anos. O filho assumiu o chapéu, a taça e a tradição.

2026. O meme que parou a internet
Na semana do confronto entre Brasil e Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, um vídeo tomou as redes sociais com uma velocidade que poucos conteúdos esportivos tinham alcançado em meio ao mar de vídeos, montagens e memes em geral.
Na montagem, Vini Jr. aparecia ao volante de um carro cantando “A Thousand Miles”, de Vanessa Carlton, ao lado de Haaland, que segurava um cachorrinho no colo. A cena reproduzia com fidelidade o famoso momento de “As Branquelas”, filme de 2004, com os personagens de Marlon Wayans e Terry Crews.



A publicação original chegou a 15 milhões de visualizações. Repostagens somaram mais de 85 milhões. Terry Crews comentou e repostou. Haaland respondeu: “Temos que reproduzir.” O comentário teve 2 milhões de curtidas. Vini Jr. também entrou na brincadeira.
O criador era Alexandre Kazuo Kubo, publicitário de 40 anos, nascido em Porto Alegre. Mora nos Estados Unidos há cinco anos. Diretor de criação, usou a plataforma Invideo AI combinada com outras ferramentas e finalizou no Premiere. O processo levou mais de duas horas.
“Não imaginava essa repercussão. Mas acho que nesse vídeo são muitos ingredientes. A música, que ficou na cabeça das pessoas, esse filme clássico que os brasileiros adoram, o Terry Crews, o Haaland e o Vini Jr. interagindo com o post. O alcance perdeu o controle”, disse Kazuo em uma entrevista.
O fio que atravessa gerações
Aldyr Garcia Schlee usou lápis. Clóvis Acosta Fernandes usou a própria expressão. Alexandre Kazuo Kubo usou inteligência artificial. Os três são gaúchos e todos acharam, cada um no seu tempo e com as ferramentas disponíveis, uma forma de dizer algo que o futebol brasileiro precisava ouvir.
Um deu ao Brasil uma nova identidade depois de uma derrota histórica. O outro traduziu, sem palavras, a dor coletiva de um país. O terceiro transformou uma rivalidade esportiva em alegria compartilhada por cem milhões de pessoas ao redor do mundo.
Nenhum dos três estava em campo. Nenhum chutou uma bola, deu uma assistência ou defendeu um gol. Mas todos entenderam algo que vai além do esporte: o futebol só existe como paixão porque tem gente capaz de dar forma ao que os outros sentem – e, claro, três gaudérios.





