Veterinária contratada pela Prefeitura para atuar em abrigo da Fenac era investigada desde 2024
Após um escândalo em junho de 2024 envolvendo uma falsa veterinária que geria a conta das doações do antigo Hotel Fenac durante a enchente, a investigação da Polícia Civil concluiu que a mulher desviou mais de R$ 70 mil em doações. Ela obteve gastos que “não condiziam com seu padrão de vida”, aponta a polícia. O Ministério Público deve oferecer acordo no dia 15 de maio.
O caso envolve Kharina Oliveira Lopes, de 31 anos na época, que foi contratada pela Prefeitura para atuar no abrigo montado no antigo hotel da Fenac, durante o período das enchentes de 2024. Na época, em 25 de junho foi descoberta a fraude. Segundo a investigação, Kharina não possui registro no Conselho Regional de Medicina Veterinária nem em âmbito nacional.
Mesmo assim, apresentou documentos ao município que supostamente comprovariam sua formação. Em contato na época, ela chegou a afirmar: “meu registro é de número 78438, do Paraná”. A informação, no entanto, nunca foi confirmada. Ela ainda realizou procedimentos em animais, como vacinas, segundo suas colegas.
Tudo começou por denúncias de voluntários que atuavam no abrigo e desconfiaram da falta de transparência na gestão das doações. Logo o caso passou a ser investigado também como estelionato. Com a quebra de sigilo e apreensão de equipamentos, a Polícia Civil conseguiu mapear as movimentações financeiras. Em maio de 2024, entraram cerca de R$ 29 mil em doações, com pouco mais de R$ 14 mil em saídas.

Já em junho, os valores dispararam: foram mais de R$ 102 mil arrecadados e R$ 63 mil gastos. O detalhe é que parte desses dados teria sido adulterada pela própria suspeita. Um extrato enviado por ela a uma voluntária mostrava números bem menores: cerca de R$ 32 mil em entradas e R$ 13 mil em gastos naquele mês.
As investigações apontam que o dinheiro das doações era usado para despesas pessoais: tele-entregas, restaurantes, passeios, academia, roupas, cosméticos, transporte e até transferências para contas próprias. Entre os gastos, chama atenção a compra de uma bicicleta de cerca de R$ 3 mil. Em um único dia, 11 de junho, ela gastou quase R$ 10 mil. Já no dia 15, foi para Gramado e utilizou mais de R$ 4 mil das doações. Tudo isso em meio à crise das enchentes.
No mesmo dia em que sua falsa identidade profissional foi descoberta, 25 de junho, Kharina transferiu R$ 18 mil para outra ONG, alegando ser todo o valor restante. No dia seguinte, após ter o celular apreendido, comprou um novo aparelho, um iPhone 15, gastando mais de R$ 5 mil.
A investigação também analisou o histórico financeiro da suspeita e apontou incompatibilidade com o padrão de vida apresentado. Segundo os dados, ela teve apenas um vínculo formal de trabalho, entre 2017 e 2018, encerrado por justa causa.
No total, foram arrecadados R$ 134.136,91 em doações, sendo que R$ 72.085,66 teriam sido desviados. As investigações foram concluídas em março de 2026. Agora, o Ministério Público deve oferecer, no dia 15 de maio, um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP).
Para evitar o processo, Kharina precisará devolver o valor desviado, pagar cinco salários mínimos à comunidade e prestar serviços na causa animal por um ano, assim admitindo crime. Caso descumpra o acordo, o processo segue normalmente, e ela poderá ser presa. A defesa foi questionada pela reportagem e o espaço segue aberto para contraponto.
Foto da capa: ONG Animais da Enchente/Divulgação
