PUBLICIDADE
Economia Esportes

Do shortinho do Pelé ao calção até o joelho: como a moda, a tecnologia e a cultura mudaram uniformes de futebol

Pelé e Endrick, a diferença no comprimento e estilo do calção

O que parece só estética esconde décadas de influência da indústria têxtil, do basquete americano e das grandes marcas esportivas

Pelé entrou em campo na Copa de 1970 com um calção que mal cobria a metade da coxa. Mais de 50 anos depois, Endrick joga com um modelo que chega perto do joelho. A mudança é visível em qualquer comparação de foto, mas a explicação raramente aparece nas conversas sobre futebol. Por que o calção cresceu?

A resposta não é simples, e é justamente por isso que vale a pena contar.

Registro de Pelé feito pelo único fotógrafo gaúcho na Copa de 1970, Alceu Feijó, no México
Registro de Pelé, feito pelo único fotógrafo gaúcho na Copa de 1970, Alceu Feijó, no México

O tempo do shortinho

Durante décadas, o calção curto foi padrão absoluto no futebol mundial. Não era questão de estilo: era a adaptação possível do conforto em função da limitação de material. Os uniformes das décadas de 1950, 1960 e 1970 eram majoritariamente feitos de algodão. Quer dizer, um tecido que absorve suor, pesa quando molhado e não tem elasticidade adequada para peças maiores. Especialmente quando precisava ser vestido por grandes craques que corriam, driblavam, marcavam e anotavam ao longo das partidas inteiras. Menos tecido significava menos problema. O short curto era, antes de tudo, funcional.

Nessa época, nenhuma grande marca ditava a silhueta do uniforme. As peças não eram artesanais, mas produzidas por fabricantes locais com pouquíssima padronização global.

Pelé e Endrick, a diferença no comprimento e estilo do calção
Pelé em 1970, na final e nas quartas, com seu calção curtíssimo

Copa de 90 e Copa de 94

A mudança começou a aparecer no futebol da Europa, ainda na segunda metade dos anos 1980. As camisas foram as primeiras a ficarem mais largas, e isso apontou um sinal do que viria. Na Copa de 1990, na Itália, a estética oversized – algo como “acima do tamanho”, em uma tradução livre -, já aparecia nos uniformes. Mas só na Copa de 1994, nos Estados Unidos, o calção mais comprido se consolidou como tendência global.

Bebeto e Romário na copa de 1994
Bebeto e Romário na Copa de 1994, nos Estados Unidos

E, não por acaso, naquele momento os norte-americanos eram o epicentro de uma revolução cultural que misturava esporte, música e moda. Tudo muito influenciado pelo basquete da NBA, com Michael Jordan como símbolo máximo. O estilo das quadras, influenciado pelo hip-hop e pela moda do que se usava nas ruas, trazia peças largas, compridas e até maiores do que o necessário. A coisa toda se misturou e o visual vazou para o futebol com uma força que nenhuma federação conseguiu conter.

A tecnologia que viabilizou a mudança

É claro que a tecnologia de materiais foi importante, mas nessa história nem tudo pode ser creditado à inovação tecnológica. O poliéster existe desde os anos 1950 e já estava presente em uniformes esportivos antes do short crescer. Mas foi a evolução dos tecidos sintéticos, materiais dry-fit, de compressão e de termorregulação desenvolvidos a partir dos anos 1980 e aperfeiçoados nos anos 1990, que tornaram o calção longo viável mesmo no alto rendimento.

Um short de algodão comprido seria insuportável em 90 minutos de jogo: ficaria pesado, encharcado, restritivo. Com os novos tecidos, o calor corporal é gerenciado, o suor é expelido para a superfície e o peso permanece mínimo. A tecnologia não criou o short longo, mas possibilitou remover o obstáculo que o impedia de existir.

Influência da cultura e estigma dos anos 1980

Existe um fator que raramente entra nas análises sobre moda esportiva, mas que pesquisadores e historiadores do esporte apontam com frequência vem da saúde pública e os estigmas culturais que vieram com a chamada “epidemia de AIDS”. O contágio e mortes em decorrência do vírus HIV explodiram nos anos 1980, e isso colaborou com um estigma social em torno do corpo masculino exposto e de qualquer estética associada à homossexualidade.

No futebol, um ambiente historicamente marcado pela hipermasculinidade, cobrir mais o corpo tornou-se, gradualmente, uma resposta cultural. Não havia decreto, não havia declaração oficial. Mas o curto foi ficando menor no imaginário coletivo do esporte, e o comprido foi ganhando terreno como símbolo de virilidade e seriedade atlética.

As marcas viram o negócio

À medida que o futebol se tornava o esporte mais assistido e comercializado do planeta, marcas como Nike, Adidas e Puma perceberam algo simples: mais tecido é mais espaço para anúncios. Um calção comprido é um outdoor maior, ou seja, com mais área para logomarcas, estampas e identidade visual das equipes.

A indústria esportiva, que movimenta bilhões de dólares em licenciamento de uniformes, não tinha nenhum motivo para encurtar o calção, e talvez ,se pudesse, deixaria ainda mais longo.

E agora, voltam os curtinhos?

Nas redes sociais, cresce uma nostalgia pelo short curto, tanto no futebol quanto no vestuário masculino cotidiano. Algumas marcas já relançaram modelos retrô inspirados nos anos 1970 e 1980, e o debate rende engajamento alto sempre que o assunto aparece. Nas peladas ou rolês, já vê alguns apostando na mobilidade dos mais curtos.

Mas o mercado ainda hesita. O short longo está tão consolidado no imaginário do futebol atual que qualquer ruptura exigiria uma mudança cultural tão grande quanto aquela que o trouxe até aqui.

Por enquanto, o calção continua crescendo e carregando, com ele, muito mais história do pode caber em uma peça de fardamento.

Compartilhe este conteúdo
PUBLICIDADE

Sugira uma pauta

Você tem alguma grande história para dividir conosco? Algum problema? Esse espaço é para sugestões de pauta. Envie aqui em um breve texto e informe o seu contato para a equipe de jornalismo.

Anuncie sua marca

Que tal amplificar o seu negócio e suas vendas? Aqui no DuduNews temos campanhas personalizadas para a sua empresa. Entre em contato conosco e vamos criar uma campanha juntos!