Além da dor de cabeça nos temporais: dos acidentes de trânsito à uma cidade mais bonita
Faltou luz aí? Pois é, aqui faltou. E não é novidade, né? Com o temporal do dia 21 de setembro, foram mais de 381,4 mil clientes sem energia elétrica nos vales do Sinos, Paranhana e Taquari, conforme a CPFL RGE. Entre os transtornos, destacamos cerca de 40 árvores caídas e 120 destelhamentos somente em Novo Hamburgo, conforme informado pela Prefeitura por meio da Defesa Civil.
E, como de costume, a árvore cai, arrebenta os fios e vão se somando 24, 48, 72 horas até a luz voltar… Isso quando o poste não vai junto ao chão ou quando os fios não são furtados (sim, presenciamos este caso no Bairro Ideal, em Novo Hamburgo).
Mas será que existe uma alternativa? A fiação subterrânea é uma realidade em diversas cidades pelo mundo e também já pode ser encontrada em municípios brasileiros. A ideia de retirar os fios dos postes e “enterrá-los” pode contribuir para reduzir a exposição da rede a quedas de árvores e outros problemas provocados por temporais, além de embelezar completamente a paisagem.
Exemplos de perto: Gramado, na Serra, e São Leopoldo, no Vale do Sinos
E não precisamos ir tão longe: Gramado, na Serra Gaúcha, já possui a tecnologia há 20 anos. A tradicional Avenida Borges de Medeiros, no Centro da cidade, possui a fiação toda subterrânea, preservando a paisagem das construções tradicionais e reduzindo a exposição da rede aérea durante eventuais temporais.
São Leopoldo, no Vale do Sinos, também possui sua principal rua com os fios todos embaixo do solo. A Independência, ou tradicional “Rua Grande”, recebeu uma grande obra. Iniciada em outubro de 2023 e finalizada em dezembro de 2025, foram mais de R$ 50 milhões investidos na revitalização, que incluiu redes de energia, esgoto, drenagem pluvial e a retirada dos antigos postes e cabos. Tudo isso em um trecho de 1,2 quilômetro, compreendendo oito quadras entre a Avenida Dom João Becker e as ruas finais do Centro. Praticamente metade deste investimento foi para enterrar os fios.
O arquiteto Micael de Oliveira, da Prefeitura de São Leopoldo, informou que o projeto envolveu R$ 21,45 milhões para as redes subterrâneas de energia elétrica, incluindo estruturas, fiações, materiais e equipamentos; R$ 2,53 milhões na rede pública de energia elétrica para iluminação e tomadas; e R$ 3,93 milhões na estrutura para distribuição subterrânea de redes de telecomunicações. Ele destaca que foram enterrados 28,7 quilômetros de cabos de energia elétrica e outros 20,6 quilômetros destinados à iluminação pública, além de 26,9 quilômetros de subdutos para telecomunicações e 5,8 quilômetros de dutos adicionais.
Micael explica que a Prefeitura também realizou reuniões com a RGE e empresas de telecomunicações para definir a estrutura e a transposição das redes, criando um “grupo de WhatsApp” entre o município, a empresa responsável pelas obras e as concessionárias. “Uma Cartilha foi disponibilizada para apresentar procedimentos, limitações e boas práticas a serem observadas durante o Projeto, instalação e operação das Redes de Telecom”, disse. Segundo Micael, fisicamente também seria possível ampliar a infraestrutura para outras vias, mas, atualmente, não há outro projeto semelhante previsto em São Leopoldo.
Outro exemplo a ser citado é Curitiba, no Paraná. Por lá, a Prefeitura estuda uma parceria público-privada, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para enterrar cerca de 120 quilômetros de fiação. Mas aí pensamos… e Novo Hamburgo? Há a possibilidade de a Capital Nacional do Calçado utilizar o exemplo das grandes cidades, inclusive da vizinha?
E Novo Hamburgo?
Não uma quilometragem que podemos contar até para ir à praia, como Curitiba, mas já pensou a nossa Pedro Adams sem essa chamada “porcalhada”, como o próprio Dudu já mencionou? Ou a Bartolomeu de Gusmão, a maior rua do município, que cruza Canudos? Convenhamos: a cidade ficaria muito melhor com a fiação subterrânea. E mais segura também!
Iniciamos falando do temporal de setembro, mas, na tormenta que passou pela cidade na fatídica quinta-feira de 6 de agosto, o DuduNews trouxe a informação de que somente Novo Hamburgo registrou 23 mil pontos sem luz. Para se ter uma ideia, essa falta de energia perdurou por mais de dois dias em determinados locais, tanto em agosto quanto em setembro.
O repórter Gabriel Muniz contou a história de uma família que vende açaí, churros e demais doces no Bairro São Jorge e teve prejuízos de ao menos R$ 2 mil por não conseguir produzir nas vésperas do Dia dos Pais. Um fio havia rompido e deixado a rua inteira sem luz.
Eu mesmo presenciei pessoas comprando gelo para guardar os mantimentos da geladeira dentro de um cooler. Em agosto, também registrei uma família que mora próximo à Estrada Afonso Strack, na Lomba Grande, que ultrapassou as 60 horas sem energia, passando o fim de semana do Dia dos Pais à luz de velas. Essa mesma família ficou sem luz em agosto e, em setembro, novamente.
Antes dessas duas datas, na madrugada de 16 de julho, o motoboy Walter Miguel, de 31 anos, estava finalizando uma noite de trabalho quando sofreu um acidente na Rua Benjamin Altmayer, ao ingressar no Bairro Roselândia. Ele teve um profundo corte no queixo ao se “enroscar” em um fio atravessado na via.
Walter foi socorrido por amigos, que o levaram para a UPA. “Logo que saí da BR-116 e entrei na Benjamin Altmayer, acertei o fio que estava atravessado na rua, com uma parte mais baixa. Tive a sorte de o fio arrebentar, senão seria muito pior”, detalha. O corte foi profundo na região do queixo. O rapaz levou sete pontos e precisou ficar de repouso, impedido de trabalhar. “Estou indignado. Sou entregador autônomo. Se eu não trabalho, eu não ganho”, desabafou, em reportagem ao DuduNews na época.
Contudo, com os problemas recorrentes quando tratamos da fiação hamburguense (e que não são exclusivos de Novo Hamburgo), a Prefeitura informou à nossa reportagem que sim, é possível, e existem projetos sendo tratados para enterrar os fios. O engenheiro do município, Eziel Teles da Silva, afirma que já há tubulações disponíveis nas calçadas, podendo ser utilizadas pelas empresas de telecomunicações para lançar seus cabos subterrâneos. “Temos executado várias ruas do Centro desde a revitalização de 2018. Já propus uma execução neste formato em uma rua próxima ao Fórum (novo trecho da Rua Heitor Villa-Lobos)”, destaca o engenheiro.
Falta “sentar e conversar”
Porém, tendo a afirmação do poder público de que já há estrutura em determinados pontos, o que falta? O engenheiro aponta que é “sentar e conversar” quando se trata das companhias de telefonia e internet. Semelhante ao exemplo trazido de São Leopoldo.
“No início de agosto chamamos estas empresas para retomar a discussão. Algumas dispuseram-se a trabalhar conosco neste encaminhamento, verificando quais as dificuldades e possibilidades.” Neste caso, Eziel prevê uma boa evolução nos próximos meses para “fazer alguns trechos-modelo no Centro”, afirma. Entre os caminhos citados, surge a possibilidade de a primeira rua a receber essa tecnologia ser a Primeiro de Março, na altura do Bairro Pátria Nova.
Empresa de internet diz que estrutura ainda é “insuficiente”
Entre pontos e contrapontos, nossa reportagem buscou contato com o outro lado: os donos dos fios. Cássio Silva, diretor da Sebratel, explicou que a estrutura preestabelecida não comporta todas as companhias da cidade. “Não fomos chamados em 2018 para o diálogo. A tubulação é insuficiente”, alega. Segundo Cássio, a rede não poderia ser aplicada integralmente como se imagina. “Essa rede que foi feita no Centro não foi pensada em ligar os prédios a essa rede. Não tem como eliminar postes, bem como os cabos aéreos. As caixas não têm tamanho para receber a rede de distribuição e as enterradas não entram nos prédios e casas”, conclui Cássio.
De acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), no Brasil, em 24 de setembro de 2026, há 20.470 empresas de telecomunicações outorgadas no país, com mais de 56 milhões de assinaturas. Ou seja, empresas que possuem autorização da Anatel para prestar o serviço e estão registradas. Deste montante, 860 empresas estão no Rio Grande do Sul, sendo 20 em Novo Hamburgo. Enterrar fios de ao menos 20 empresas em nossa cidade seria uma “missão”, não é? Ou, no dito popular: “não é de barbada”. Vale destacar também: há mais de 93,7 mil assinaturas na cidade.
Para rede elétrica, o buraco é “mais embaixo”
Agora, sobre a fiação elétrica, pode-se dizer a velha e tradicional expressão popular de que “o buraco é mais embaixo”. Questionado, o engenheiro Eziel destaca que essas redes ainda não estão no papel. Ele responsabiliza a RGE pela falta de retorno da companhia sobre o tema. “Em relação às redes de energia elétrica, é considerado bem mais complexo de viabilizar, e sempre é mais complicada a execução.
Isso foi debatido com a RGE durante a revitalização do Centro em 2018 (quando ainda era AES Sul). Foi levantada a possibilidade de enterrar as redes de média e baixa tensão, mas alegaram ser um investimento muito elevado”, diz Eziel, relacionando ao tipo de infraestrutura necessária para essa instalação em específico.
A reportagem buscou contato com a RGE sobre o caso. Em resposta enviada à nossa equipe, a concessionária esclareceu que ainda não foi notificada oficialmente pelo município hamburguense sobre essa demanda. A distribuidora de energia salientou que qualquer iniciativa para o aterramento do cabeamento requer análises minuciosas de engenharia e viabilidade financeira, além do cumprimento das normas regulatórias vigentes. “Projetos relacionados à implantação de rede elétrica subterrânea exigem estudos específicos e são analisados caso a caso, considerando critérios técnicos, regulatórios e de viabilidade”, afirmou a RGE, em nota.
Então, concluímos: há uma estrutura pronta, mas ela não é considerada ideal pelas empresas de telefonia e internet. Poderíamos ter um desenvolvimento nessa parte, mas não no que chamamos de “mundo ideal”, que seria 100% dos cabos enterrados e a ausência dos postes.
Entre grandes investimentos, limitações técnicas e a necessidade de diálogo entre Prefeitura, RGE e empresas de telecomunicações, a ideia está na mesa. Até o presente momento, há encontros sendo realizados e discussões sobre o tema, mas nada concreto. Afinal, a experiência de São Leopoldo mostra que é possível construir esse caminho, mas também mostra que, para isso, não basta apenas colocar os fios debaixo da terra. É preciso projeto, investimento e, como disse o engenheiro de Novo Hamburgo, “sentar e conversar”.





