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Opinião

Primeiro amor, primeiro emprego e um verão que não volta – por Marina Mentz

Esses dias eu encontrei, ou melhor, reencontrei um grande amor da minha vida. Pelo menos, na época, eu achava que era.

Eu ainda era muito guria. Tava descobrindo aquilo que eu gostava: as roupas que queria botar, as músicas que queria ouvir e os lugares que queria frequentar. Só queria, porque com 15 anos não dava pra escolher exatamente aonde ir.

Naquele tempo, todo tempo era verão. O clima era bom, os compromissos eram quase nenhuns e a vida parecia filme de Sessão da Tarde, daqueles que se passam num litoral norte-americano, num lugar tipo Miami, Orlando ou sei lá, alguma beira da Flórida.

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E a trilha sonora, óbvio, passava por muitos sons incríveis, que eu achava que narravam as maiores verdades e as melhores sensações que um ser humano pode viver.

Tinha um pouco de tudo: Engenheiros do Hawaii, Linkin Park, NOFX, The Offspring e tinha até metal alemão, tipo Rammstein. Mas o que fazia o meu coração bater mais forte era a banda que nós dois, eu e o meu primeiro amor, tínhamos em comum: Forfun.

Sabe que eu só me dei conta disso agora, quando reencontrei esse cara? Essas eram as músicas que meio que narravam aqueles verões soltos. E ele. Um cara alto, de sorriso lindo e olhos da cor que a grama fica no verão. Já falei que tudo era verão naquele tempo, né? Talvez, inclusive, esse amor tenha durado um verão só. E só não digo que foi um amor de verão porque aí ia parecer que tinha reciprocidade. Era mais um amor platônico, de quem nunca vai ser vista nem considerada por um cara incrível como ele.

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Ele era uns anos mais velho, mas reunia tudo o que eu achava de sensacional num cara. Eu imaginava a gente de mãos dadas no fim da tarde, caminhando na areia. A gente jogando bola juntos numa tarde quente. Opa, a gente juntos na barraquinha do crepe. Imaginava até o meu nome junto com o dele: família feliz, filhos, casa, ouvindo as mesmas músicas que nós dois amávamos naquela época. Claro que ele não sabia que eu também amava, né?

Já falei: ele era um pouco mais velho. Mas nessa época também tinha o Pedro. Mesma turma, mesmos gostos, mesma idade que eu e encontros de vários verões. Foi o Pedro quem esses dias me chamou e disse:

— Viu o teu príncipe? No que virou?

Claro que eu fiquei impressionada com a audácia daquele “no que virou“. Mas o Pedro e eu temos intimidade pra esse tipo de audácia. Por pouco o Pedro não foi o protagonista deste texto com o posto de meu primeiro amor, mas eu era apalermada demais naquele tempo. Mas Pedro e eu passamos adiante dos verões e hoje, adultos, somos até do mesmo mercado, do mesmo trabalho. Já o meu príncipe é business. Entre trocas de figurinhas profissionais, da vida pessoal e de gostos musicais, Pedro e eu continuamos os mesmos: um bom apreço por areia quente e água do mar gelada, gente boa, piada boa, as músicas daquela adolescência que ainda fazem sentido, e cada um com o seu time do coração, que faz a gente, individualmente, sofrer.

Mas aí, quando ele me veio com essa, “viu no que virou o teu príncipe“, eu quase não acreditei que aquele que eu tava vendo era o meu grande amor da adolescência. Meu marcante primeiro amor. Aquele da gargalhada mais linda, do porte de Hércules, da pele bronzeada e do cabelo que até mudava de cor quando tomava todo aquele sol. Sério, Pedro?

Agora a gargalhada é de deboche, o porte é de Hades, a pele tá toda manchada pelo sol displicente daquele outro tempo, e o cabelo muda de cor conforme a falastragem e o temperamento explosivo. Bem Hades mesmo, só que sem tanto daquela inteligência. Dá pra ver que não preservou nada do que parecia acreditar quando cantava a plenos pulmões o idealismo da juventude. E, putz, aquilo chegava a dar um frio na barriga naquela marina adolescente. Agora ele fala em formato de gancho, em vez de frase. Mas parece ser amado, e até idolatrado, por muito mais gente do que uma marina adolescente.

A verdade é que eu não pude deixar de me perguntar: como foi que a gente seguiu caminhos tão diferentes?

Falei isso pro Pedro, atônita, tentando achar explicação pro inexplicável. Como é que aquele pra quem eu dediquei os meus suspiros mais profundos, considerado o melhor bodyboarder da minha rua, tinha virado um falastrão desses?

A única resposta possível que a gente achou, Pedro e eu, é que tudo acabou determinado pelo primeiro emprego de cada um: o Pedro, assistente de vinícola; eu, caixa de loja; e o Hades, CC na Câmara dos Deputados. Tudo meio que se explica.

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