Na colônia de São Leopoldo, entre 1869 e 1874, boatos sobre uma “seita” liderada por uma bruxa percorreram a comunidade, resultando na intervenção do Exército e em um massacre no Vale do Sinos, com cerca de 16 pessoas mortas. Mais de 150 anos após sua morte, Jacobina Mentz Maurer, a primeira “feiticeira” conhecida do Rio Grande do Sul, continua tendo a trajetória revisitada por historiadores para entender o que realmente aconteceu no Morro Ferrabraz.
A professora e doutora em História, Priscilla Almaleh, que ajudou a desenvolver o projeto “Protagonistas do Vale”, com o objetivo de destacar nomes de mulheres que foram protagonistas na região do Vale do Sinos, reconta o caminho de Jacobina.
Os primeiros imigrantes no Vale
Em 1824, chegou ao Brasil o primeiro grupo de imigrantes alemães. Entre eles estavam André Mentz e Maria Elisabeth Muller, que se instalaram em Hamburgo Velho em busca de uma vida melhor. A filha do casal, Jacobina Mentz, era curiosa e tinha forte devoção religiosa. Ainda criança, foi diagnosticada com “transtornos mentais” após episódios de desmaios e convulsões.
“Na época, existia pouco ou quase nenhum estudo relacionado à vida das mulheres. Então, foi muito mais fácil colocá-la como uma mulher que tinha ‘transtornos’. Desde pequena, o próprio médico, para tentar auxiliá-la, recomendou que se casasse”, conta Priscilla.
Foi assim que, em 1866, Jacobina casou-se com João Jorge Maurer e virou Jacobina Mentz Maurer. Aos 33 anos, já era mãe de seis filhos pequenos.
O casal se mudou para a região do Morro Ferrabraz, em Sapiranga, onde começou um dos capítulos mais marcantes da história local.
Muckers: os “falsos beatos”
A historiadora explica que, na comunidade instalada aos pés do Ferrabraz, o acesso à medicina era limitado. João Jorge Maurer atuava como curandeiro e atendia pessoas que buscavam ajuda para diferentes enfermidades. Como muitos pacientes vinham de longe, alguns permaneciam na casa do casal durante o tratamento.
Nesse contexto, Jacobina passou a ler a bíblia e a cantar para acolher as pessoas que procuravam o marido. Aos poucos, ganhou influência entre os moradores, que encontravam na casa do casal apoio espiritual e comunitário.
A comunidade de Jacobina começou então a desenvolver práticas de cooperação, com moradores ajudando uns aos outros e buscando maior autonomia em relação ao restante da sociedade.
A organização, no entanto, passou a incomodar setores da sociedade. Ao mesmo tempo, começaram a circular discursos que questionavam a conduta e a fé de Jacobina. “Isso começou a causar um certo pânico para alguns comerciantes da época, farmacêuticos, religiosos, comerciantes. Porque ali eles começaram a criar uma sociedade autossuficiente”, conta.
Com isso, o grupo começou a ser chamado de Muckers, termo alemão que pode ser traduzido como “falsos beatos.”
Bruxa: uma mulher que não correspondia aos ideais
A liderança de Jacobina começou a ser interpretada como a de uma bruxa liderando uma seita. Para a historiadora, a forma retratada precisa ser compreendida a partir das expectativas impostas às mulheres naquele período.
“A mulher que não correspondia aos ideais da época era chamada de ‘louca’. Se não era uma pessoa fazendo os caminhos morais de gênero do período propostos para as mulheres, então era louca, bruxa.”
Embora Jacobina continuasse lendo a Bíblia e falando de Jesus Cristo, o fato de reunir pessoas e desenvolver práticas religiosas fora dos espaços convencionais contribuiu para que fosse vista como uma ameaça.
Assim, a perseguição ao grupo também foi acompanhada pela construção de uma imagem negativa de sua principal liderança, que em alguns documentos é apresentada como mediadora dos poderes da Natureza.
Interrogados, os seguidores de Jacobina descreviam a mulher como “escolhida pelo Espírito, como veículo de sua
verdade, como instrumento de um Deus justo, como estrategista da resistência armada e fonte de todas as decisões”.
Em resposta, a comunidade que não apoiava os Muckers espalhavam o pânico e a consideravam uma feiticeira, consideração essa que foi passada adiante e seguiu até os dias mais recentes, no nosso século, dando a ela muitas vezes a alcunha de bruxa.
Perseguição, massacre e apagamento da memória


A partir de 1873, inicia-se então uma perseguição aos Muckers, que resultou em um confronto armado, boatos de violência dos dois lados, e, por fim, na ofensiva militar contra a comunidade do Morro Ferrabraz.
Sob o comando do coronel Genuíno Sampaio, tropas foram enviadas à região para combater o grupo. O conflito terminou com a morte de integrantes da comunidade, entre eles Jacobina e João Jorge Maurer.
Segundo Priscilla, a violência não se limitou à destruição do grupo. A historiadora relata que Jacobina foi violentada após a morte e que seu corpo teria sido “concretado”, em uma tentativa de impedir que sua história e memória permanecessem.
“Foi uma pedagogia do medo, em uma tentativa de acabar com a história e eliminá-la, para que nenhuma outra revolução acontecesse naquele território. Até hoje circulam fotos da Jacobina, só que não há um consenso historiográfico de que essas fotos se remetam a ela, justamente por conta do apagamento da sua memória.”

A ausência de registros seguros dificulta a confirmação de sua aparência e reforça a necessidade de analisar criticamente as imagens e narrativas que chegaram até os dias atuais.
Para Priscilla, revisitar essa história também significa reconhecer a violência sofrida por Jacobina sob uma perspectiva contemporânea.
Embora o termo não existisse na época, a historiadora considera possível compreender sua morte como feminicídio, levando em conta a violência de gênero e a tentativa de destruir a imagem de uma mulher que desafiou os padrões de seu tempo.
A memória de Jacobina no Vale do Sinos
Mais de 150 anos depois do conflito, a memória de Jacobina continua presente na região, embora ainda existam contradições sobre a forma como sua história é representada.
Em Sapiranga, o roteiro “Caminhos de Jacobina” é um percurso ligado à trajetória dos Muckers e aos locais relacionados à comunidade. Ao mesmo tempo, uma estátua do coronel Genuíno Sampaio, responsável pela morte dos seguidores de Jacobina, está instalada no local onde, segundo Priscilla, ficava a casa de Jacobina.

Em São Leopoldo, Jacobina dá nome ao Centro Jacobina, espaço municipal de atendimento a mulheres em situação de violência, e a um prêmio destinado a mulheres que se destacam como lideranças comunitárias. A cidade também mantém um busto em sua homenagem em frente à Prefeitura.
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Para Priscilla, a história de Jacobina permanece relevante porque a trajetória das mulheres ainda está sendo pesquisada e reconstruída. Apesar dos avanços acadêmicos, as expectativas sociais sobre o que uma mulher deve ser e como deve se comportar continuam influenciando a forma como elas são julgadas.
“Mulheres podem ser revolucionárias, mulheres podem fazer o que elas quiserem, mas nem sempre a sociedade vai estar de acordo com mulheres poderosas”, afirma a historiadora.




