A jovem hamburguense Bruna Feltes, de 27 anos, decidiu romper um silêncio que carregou durante grande parte da vida. Nesta semana, ela publicou um vídeo nas redes sociais para contar que sofreu abusos sexuais durante a infância, vindas de um familiar, e alertar outras famílias sobre a importância de proteger as crianças e adolescentes da violência sexual. No relato, ela incluiu fotos de infância e também áudios que seriam a confissão do suspeito.
“Eu sofri abuso sexual por mais de 12 anos na minha vida. Os abusos começaram antes mesmo de eu ter ciência, ou seja, a primeira lembrança que eu tenho quando criança, ali eu já lembro que aconteciam esses abusos”, desabafa.
A exposição pública veio depois de anos tentando compreender o que havia acontecido e encontrar coragem para denunciar. Em agosto, Bruna procurou a Polícia Civil, registrou um boletim de ocorrência e prestou relato sobre os abusos. Atualmente, ela também recebe acompanhamento psicológico.
O suspeito é um homem de Novo Hamburgo de mais de 80 anos, que seria um profissional da educação aposentado. Ele tinha uma relação próxima e de confiança com a família de Bruna. Além da proximidade na cidade, ela costumava passar as férias escolares na casa de praia do suspeito. Neste contexto, ela diz que a esposa do homem tinha ciência dos crimes e também facilitava os abusos.
Segundo o relato, os abusos aconteciam também dentro da casa de Bruna, em momentos em que ninguém percebia. Para a jovem, o fato de as situações terem começado tão cedo fez com que ela demorasse a compreender que aquilo era violência. “Eu nunca gostei, eu nunca entendi”, conta.
De acordo com ela, os abusos diminuíram significativamente quando tinha por volta de 14 anos, período em que a família diminuiu contato com o homem.
Uma das filhas do homem também teria relatado abusos
Anos depois, Bruna encontrou uma carta escrita por uma das filhas do suspeito, já falecida. No documento, segundo ela, a mulher também relatava ter sofrido violências sexuais praticadas pelo pai.
A descoberta fez Bruna perceber que poderia não ser a única vítima. Em agosto, segundo ela, a carta foi anexada como prova ao registrar a denúncia na Polícia Civil.
Bruna afirma que só conseguiu falar pela primeira vez sobre os abusos com os pais quando tinha 23 anos. Segundo ela, a revelação foi acompanhada pelo choque da família. “Eu achava que todo mundo sabia o que tinha acontecido comigo, mas os meus pais estavam desolados”, relata.
Isso porque o homem não tinha apenas uma relação de proximidade com os pais de Bruna. Ele também teria ajudado financeiramente a família ao longo dos anos, o que, na avaliação dela, aumentava a relação de poder e dificultava ainda mais a denúncia.
Bruna conta que, naquele momento, não sentiu o apoio que esperava para denunciar o homem. Ela afirma compreender que os pais também tinham medos e dificuldades diante da situação, mas diz que a falta de apoio tornou o processo ainda mais doloroso.
Suspeito confessou os toques à ela quando criança
Depois de contar aos pais, Bruna decidiu confrontar o homem. Ela gravou a conversa com o celular quando foi até a casa dele. Segundo ela, o suspeito admitiu que havia cometido os abusos.
Em um dos momentos registrados no áudio, ele teria afirmado que os toques eram para “agradá-la”. Bruna questionou a justificativa apresentada pelo homem, lembrando que era uma criança quando os abusos aconteciam. “Mas me despertar prazer para te satisfazer com 9 anos? Eu era uma criança.”
O áudio, segundo Bruna, também foi apresentado às autoridades durante a denúncia.
“Acreditem nas crianças”
Bruna relata que as violências tiveram consequências profundas em sua vida e que enfrentou, durante anos, problemas emocionais relacionados ao trauma. “Hoje, com 27 anos, eu finalmente consegui ter coragem e fazer a denúncia com o apoio do meu pai.”
Atualmente, além do acompanhamento psicológico, ela decidiu tornar o relato público como uma forma de conscientizar outras pessoas sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes, além da importância de formalizar denúncias.
Nas redes sociais, o vídeo recebeu dezenas de mensagens de apoio de pessoas que conheciam ou não a jovem. Para ela, falar publicamente sobre a violência é também uma maneira de mostrar que o silêncio pode ser rompido, incentivar outras vítimas a procurarem ajuda e reforçar que se deve acreditar nas crianças quando estas relatarem comportamentos inadequados vindos de adultos.
Bruna reforça que pessoas que sofreram violência sexual durante a infância devem buscar orientação sobre a possibilidade de denunciar, considerando as regras de prescrição aplicáveis a cada caso.




