A dívida total do governo dos Estados Unidos superou US$ 40 trilhões pela primeira vez, informou o Departamento do Tesouro nesta quinta-feira (20). O número acende um novo alerta sobre a trajetória fiscal do país, com gastos em previdência, saúde e pagamento de juros crescendo em ritmo muito superior às receitas.
O balanço do Tesouro mostrou que a dívida pública total em circulação era de US$ 40,047 trilhões na terça-feira, sendo US$ 32,266 trilhões em títulos detidos pelo público e US$ 7,782 trilhões em dívida intragovernamental – ou seja, de ações entre órgãos, secretarias ou ministérios que pertencem a um mesmo nível de governo.
O montante mais que dobrou em menos de uma década. Quando Donald Trump assumiu a presidência pela primeira vez, em janeiro de 2017, a dívida era de US$ 19,95 trilhões. Desde seu retorno ao cargo, em janeiro de 2025, o endividamento cresceu US$ 3,8 trilhões, totalizando US$ 11,6 trilhões acumulados em seus dois mandatos.
Cerca de um terço do aumento total ocorreu durante a pandemia de Covid-19, com gastos emergenciais tanto sob Trump quanto sob o ex-presidente Joe Biden. O restante reflete desequilíbrios estruturais de longa data entre receitas e despesas, agravados pelas escolhas fiscais de ambos os governos.
Juros já superam defesa
Os EUA gastam cerca de US$ 7 trilhões por ano. Desse total, 60% vai para programas obrigatórios como Previdência Social, Medicare, Medicaid e assistência a veteranos de guerra. O pagamento de juros da dívida consome outros US$ 1,1 trilhão, valor que ultrapassou o orçamento do Pentágono já em 2025. Nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026, os juros superaram os gastos com o Medicare, tornando-se o segundo maior item do orçamento federal, atrás apenas da Previdência Social.
O déficit de julho foi de US$ 432 bilhões, o quarto maior mensal da história americana. O déficit acumulado nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026 já superou o déficit total de todo o ano fiscal de 2025.
Alerta dos credores
Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de longo prazo atingiram na terça-feira seus níveis mais altos em quase duas décadas, sinalizando que investidores estão exigindo maior remuneração diante do volume crescente de emissões. A demanda estrangeira, que responde por quase um terço de todos os títulos do Tesouro, vem recuando ao longo do último ano.
Em resposta, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou nesta quarta a duplicação do volume de recompra de títulos de 10 a 30 anos para pelo menos US$ 4 bilhões por operação.
“Impressionante e previsível”
“A dívida de US$ 40 trilhões não existe apenas nos livros contábeis do governo; ela se faz sentir em toda a economia e, de uma forma ou de outra, chega ao bolso das pessoas”, afirmou Maya MacGuineas, presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável. Ela destacou que a marca foi atingida menos de cinco meses após a dívida chegar a US$ 39 trilhões e que o valor quadruplicou em menos de 20 anos. “É impressionante como o declínio fiscal de uma potência global pode se tornar previsível”, disse.
O pacote legislativo aprovado no segundo mandato de Trump, a chamada “One Big Beautiful Bill”, deve acrescentar outros US$ 4,7 trilhões à dívida, segundo o Escritório de Orçamento do Congresso.




